Publicado a 13/03/2020

Field Notes #1 – Rato-das-hortas (Mus spretus)

Sejam bem-vindos à nova série de artigos do meu blog - “Field Notes”. Esta série vai consistir em pequenos textos em que eu vou explicar como consegui fazer algumas das minhas fotografias. O objetivo é partilhar as minhas experiências e ideias desde o momento em que idealizo a imagem nos meus pensamentos, até ao momento em que finalmente consigo a imagem final.



Neste primeiro artigo, escrevo sobre uma das minhas fotografias preferidas. Esta imagem foi recentemente premiada com uma menção honrosa no concurso de fotografia Cinclus de 2019 e, por essa, razão pareceu-me a escolha óbvia para este artigo.

Os ratinhos selvagens sempre foram um mistério para mim, pois já os queria fotografar há algum tempo, mas não fazia ideia de como o conseguir. Tudo mudou quando um dia encontrei tocas num muro de terra, junto a um caminho. Mal as vi pensei que poderiam ser obra de ratinhos selvagens e decidi experimentar colocar sementes de girassol para ver se algum animal as comia. Uns dias depois as sementes tinham desaparecido e essa foi a motivação suficiente para deslocar-me a esse local ao final da tarde com o material fotográfico às costas. Para minha surpresa, logo no primeiro dia, passado cerca de uma hora de espera, apareceu um ratinho-das-hortas (Mus spretus), que atarefado corria de um lado para o outro à procura de alimento. Por incrível que pareça estes animais estavam extremamente à vontade com a minha presença e por várias ocasiões aproximaram-se dos meus pés, curiosos com um ser que provavelmente nunca tinham visto antes. Esta foi uma das imagens que consegui nesse dia.


No entanto, não quis ficar por esta imagem. Eu queria fazer algo mais artístico e experimentar uma iluminação diferente. Queria fazer uma contraluz e voltei então ao local e preparei tudo. Coloquei o flash atrás de um ramo, a um nível um pouco mais baixo do mesmo, onde queria que o ratinho passasse. O objetivo era iluminar os seus pelos e manter o resto do corpo na escuridão. Depois de várias horas e várias noites à espera, um dos ratinhos finalmente passou onde queria e consegui a imagem seguinte.


Apesar desta foto me ter deixado feliz, ainda não era o que eu estava à procura, pois eu queria contar uma história, mais concretamente queria que a imagem mostrasse quando estes animais estão ativos, o que comem e o tipo de habitat. Nesta zona havia alguns carvalhos e era outono nessa altura, por isso, existiam bastantes bolotas. Pensei para mim “seria incrível se conseguisse uma foto de um ratinho com uma bolota, de noite e no seu habitat”. Decidi então tentar perceber se esta espécie se alimenta de bolotas e coloquei uma junto da toca. E confirmou-se, estes ratinhos alimentam-se de bolotas. Esta imagem foi feita de uma forma diferente da anterior, já não pretendia fazer uma contraluz, mas sim iluminar lateralmente apenas a área do ratinho, deixando tudo o resto na escuridão. Para isso, usei um snoot no flash e coloquei-o lateralmente em relação á câmara. Finalmente coloquei uma bolota no local em que esperava que o ratinho passasse e esperei. Depois de várias noites a tentar, finalmente consegui. Esta imagem foi um culminar de meses a fotografar um grupo de ratinhos-das-hortas e ainda hoje não me canso de os tentar fotografar, pois são animais extremamente curiosos, inteligentes e interessantes, embora imprevisíveis. É um verdadeiro prazer poder experienciar momentos únicos com estes animais, que muitos acham repugnantes, mas que no fundo são essenciais para os ecossistemas


Field Notes #1 - Algerian mouse (Mus spretus)

Nota importante: a alimentação de animais selvagens deve ser feita de forma cuidada e não exagerada. É importante que os animais selvagens não tenham acesso diário a alimento facilitado, pois se um dia este faltar podem não ser capazes de o encontrar na natureza. Estes ratinhos nunca foram alimentados em grandes quantidades, apenas colocava algumas sementes por semana. A zona em causa é uma área com grande pressão humana e, por isso, um pouco de alimento extra não terá impactes negativos nestes ratinhos, até pelo contrário. Para além disso, as sementes foram escondidas na vegetação para que os animais não se habituem a conseguir alimento sempre no mesmo local e de forma facilitada. Desencorajo qualquer tipo de alimentação em áreas protegidas. Nos locais onde a pressão humana é menor, não devemos interferir com a alimentação da vida selvagem. No futuro talvez escreva um artigo com a minha opinião sobre este assunto.


Obrigado por ler este artigo. Esteja à vontade para deixar um comentário e para partilhar. Se tiver alguma dúvida, ou se quiser saber mais sobre este assunto, pode contactar-me.


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