Publicado a 17/12/2020

Cegonhas do Mar

Uma população única de cegonhas-brancas

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina é uma área protegida localizada no Sudoeste de Portugal, conhecida pela grande diversidade de habitats costeiros, onde espécies endémicas de flora e populações únicas de aves e mamíferos prosperam. Os penhascos altos e acidentados são uma constante ao longo da costa, dando um aspeto agressivo, mas belo a esta paisagem.


Cegonhas do Mar: uma população única de cegonhas-brancas

Este parque apresenta altos níveis de biodiversidade e é casa de muitas aves migradoras, como a icónica águia-pesqueira (Pandion haliaetus) e a única população marinha de lontra (Lutra lutra) conhecida em Portugal. Com tantos organismos interessantes não foi fácil escolher a espécie alvo a fotografar, no entanto, uma delas tem me fascinado – a famosa cegonha-branca (Ciconia ciconia). Eu sei, não parece muito interessante dada a abundância e a conspicuidade desta espécie, mas as populações deste parque apresentam um comportamento único, que não acontece em qualquer outra região do planeta. Estes animais reproduzem-se nos penhascos ao longo da costa, em locais que nunca ninguém sonhou ser possível construir ninhos com dimensões tão grandes.


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A cegonha-branca normalmente nidifica em árvores, edifícios antigos e até em postes de eletricidade, no entanto, provavelmente devido à escassez destas estruturas desde há algumas décadas atrás, estes animais começaram a construir os seus ninhos em arribas. Uma das grandes vantagens de nidificar nestas condições é a proteção contra predadores terrestres, uma vez que poucos arriscariam a sua vida nas superfícies instáveis e escorregadias a estas alturas. Mas isto vem com um custo, os ninhos estão bastante expostos aos elementos e a primavera, altura em que estes animais já realizaram a postura, pode ser implacável, com dias de chuva e vento forte e temperaturas pouco agradáveis.

Apenas tive três dias para fazer uma história interessante sobre esta população, o que não é muito tempo, mas eu sabia que se colocasse algum esforço e perseverança poderia resultar. Eu queria que minhas imagens retratassem o habitat em que estas cegonhas vivem, as suas particularidades comportamentais, especialmente durante a época de nidificação, e as condições difíceis que elas têm que suportar.

Com base nas pesquisas que fiz a priori, decidi focar meus esforços principalmente num lugar, o Cabo Sardão, porque o acesso é fácil, é um local lindo e as cegonhas nidificam todos os anos aqui. O primeiro dia começou cinzento e a chuva e o vento forte foram persistentes. Não consegui tirar fotos com qualidade das cegonhas neste dia, a luz não estava boa e o vento e a chuva não ajudaram, mas encontrei algumas composições interessantes para experimentar nos próximos dias. No entanto, consegui uma bela imagem da paisagem circundante, no momento em que por breves instantes o sol brilhou por entre as nuvens e iluminou parte das falésias.


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Na manhã seguinte voltei ao trabalho, o tempo estava nublado de novo, mas a qualidade da luz tinha melhorado. Eu tinha planeado fotografar uma das cegonhas no seu ninho a cuidar dos ovos, o que acabou por ser um jogo de paciência, pois grande parte do tempo o animal estava parado a incubar. Finalmente, depois de algumas horas de espera consegui o que procurava: a cegonha levantou-se e interagiu com os ovos e ainda por cima consegui incluir na imagem os principais elementos do seu habitat, rocha e água.


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Um pouco mais abaixo, no mesmo penhasco, outro casal estava no ninho a incubar. Eu estava muito alto em comparação com as aves e normalmente não ficaria feliz com esta perspetiva, mas neste caso funcionou muito bem. O ângulo elevado permitiu livrar-me das distrações e incluir no enquadramento apenas com as cegonhas e o mar agitado no fundo, resultando numa imagem simplista. 


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Durante a tarde decidi experimentar algo um pouco diferente – fotografar cegonhas a alimentarem-se. Para isso, desloquei-me alguns quilômetros para o interior do parque, onde vários animais se alimentavam num campo, em que o solo acabara de ser revolvido para fins agrícolas.


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Fiquei bastante feliz com as imagens que que tinha conseguido até este ponto, pelo que o último dia foi dedicado unicamente à fotografia do habitat destas cegonhas, uma vez, que ainda pretendia fazer uma foto mais ampla das falésias onde estes animais constroem os ninhos. Eu queria um nascer do sol colorido, mas também queria mostrar as nuvens de tempestade e o quão agressivo o oceano pode ser neste local, queria um contraste entre a paz e o caos, porque foi essa a sensação que tive durante todo o tempo que lá passei. Após dois dias de amanheceres e entardeceres enfadonhos, as condições que esperava finalmente aconteceram e consegui a imagem que procurava.


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O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina é um local incrível e adorei cada segundo vivido lá. Com certeza que voltarei no futuro para fotografar novamente as cegonhas, outros animas e as paisagens deslumbrantes que por lá abundam.


Obrigado por ler este artigo. Esteja à vontade para deixar um comentário e para partilhar. Se tiver alguma dúvida, ou se quiser saber mais sobre este assunto, contacte-me.


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