Uma aventura fotográfica com Juan Carlos Muñoz - Daniel Santos Photography

Publicado a 28/06/2019

Uma aventura fotográfica com Juan Carlos Muñoz

Estava a navegar nas redes sociais quando uma publicação despertou a minha atenção. A Rewilding Portugal está a oferecer uma experiência para acompanhar durante dois dias o fotógrafo de natureza Juan Carlos Muñoz numa photo mission? – pensei eu! Já sigo o trabalho do Juan Carlos há algum tempo e ele tem sido uma referência para mim, por isso, esta seria uma oportunidade única, não só para o conhecer, mas também para conhecer o projeto “Life Wolflux” que a Rewilding Portugal está a desenvolver. Fiquei a saber desta oportunidade muito perto da data limite e apenas consegui enviar a minha inscrição mesmo no último dia. No dia seguinte de manhã, segunda-feira, recebi uma chamada, a dizer que tinha sido escolhido e que estava na hora de partir para a Guarda nesse mesmo dia.


Na terça-feira logo de manhã cedo encontrei-me com o Juan Carlos, com a Mar (a sua esposa) e com o Pedro, que é o coordenador do projeto. Partimos de imediato para o primeiro local da photo mission, a ribeira das cabras. Dizia-me o Pedro que neste local já foi registada a presença de lobos, o que não espanta tendo em conta a qualidade do habitat. Esta área é lindíssima, junto ao rio domina a vegetação típica de zonas ribeirinhas que vai sendo substituída por azinheiras. Paramos numa área coberta com diferentes espécies de flores, mas as que chamavam mais a atenção eram as papoilas (Papaver dubium). Enquanto o Juan Carlos fazia algumas imagens com o drone, eu aproveitei para fotografá-las. Apesar das papoilas serem lindíssimas, fotografar flores é sempre um desafio para mim. Optei por experimentar duas técnicas diferentes, primeiro incluí toda a flor no enquadramento e finalmente fiz um close up, que acabou por resultar melhor do que esperava.


Depois eu e o Juan aproximamo-nos do rio com esperanças de encontrarmos alguns animais para fotografar. O coaxar das rãs-verdes entoava intensamente por entre a vegetação e, apesar de serem fáceis de encontrar, a luz não era a ideal para as fotografar. Enquanto eu e o Juan debatíamos técnicas de composição e outros assuntos ligados à fotografia de natureza, vimos algo um pouco diferente em cima de uma rocha. Era um cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa), nunca tinha visto esta espécie e fiquei bastante entusiasmado. A luz continuava longe de ser a ideal, mas o rio estava coberto de plantas aquáticas em flor, formando um manto branco sobre a água, o que compensava esse pormenor menos positivo.


Pouco depois um vulto negro passou por cima de nós e mais uma vez fiquei sem palavras, pois era uma Cegonha-preta (Ciconia nigra), um animal raro que nidifica nesta região do país.

Após um delicioso almoço continuamos a nossa jornada pela Faia Brava, onde apenas tinha estado uma vez por breves momentos e nunca tinha tido a oportunidade de a explorar. Começamos pela parte sul da reserva à procura das vacas maronesas, que se encontram em regime semi-selvagem. Estes animais apresentam um papel ecológico muito importante, outrora feito pelos grandes herbívoros que existiam na região, que é o controlo do crescimento da vegetação. A raça maronesa é uma das raças mais próximas da espécie que deu origem ao gado bovino que existe nos dias de hoje e que viveu livremente na Europa, o auroque (Bos primigenius). Após alguns minutos a deambular nos trilhos de terra batida, finalmente encontramos a manada a alimentar-se numa zona de pasto.


Mais à frente deparamo-nos com um charco, com dezenas de rãs-verdes e eu e o Juan decidimos tentar a nossa sorte novamente. Estivemos cerca de uma hora a fotografá-las e, desta vez, as imagens revelaram-se muito superiores, uma das quais considero a melhor que alguma vez consegui desta espécie.


Uma das surpresas desse dia foi a arte rupestre que se encontra na Faia Brava, algo que nunca tinha tido a oportunidade de ver. É fascinante pensar que há milhares de anos atrás seres humanos estiveram naquele exato local a fazer arte. Segundo o Pedro, a arte rupestre da Faia Brava difere da maioria da restante do vale do Coa, por ser pintada e não gravada na rocha e por apresentar elementos mais antropomórficos.


Enquanto admirávamos as pinturas, várias rapinas planavam sobre nós, eram sobretudo grifos (Gyps fulvus) e britangos (Neophron percnopterus), mas sabíamos que existia a hipótese de observar águia-real (Aquila chrysaetos), pois um casal nidifica nas escarpas desta área do vale do Coa. Quando finalmente demos mais atenção ao que se passava no céu, reparamos numa silhueta diferente das demais e concluímos que se tratava mesmo do que já vínhamos a procurar desde o início da manhã, uma águia-real, mais uma espécie que nunca tinha visto. Por esta altura o sol já se aproximava do horizonte, mas não demos o dia por terminado, pois ainda nos faltava fotografar os cavalos garranos, que tal como as vacas maronesas encontram-se em regime semi-selvagem e cumprem a mesma função ecológica. Foi já na parte mais a norte da reserva e quando faltava sensivelmente quarenta minutos para a luz desaparecer que encontramos cavalos. A cor dourada do pôr-do-sol proporcionou um excelente ambiente para fotografar estes animais e mais tarde para fotografar a paisagem.


Para o segundo dia estava previsto fotografar alguns locais do Parque Natural do Douro Internacional. Ficamos alojados numa quinta mesmo no coração do parque, mas só pela manhã consegui perceber a beleza do local, um ribeiro serpenteava por entre as imponentes escarpas que servem de local de nidificação de rapinas, como a águia-real e o falcão-peregrino (Falco peregrinus). Quando estávamos preparados para fotografar, o sol já estava alto, mas depois de alguma procura lá consegui encontrar uma composição que valesse a pena. Neste local consegui observar mais uma espécie pela primeira vez, um abutre-negro (Aegypius monachus).


Da parte da tarde fomos à procura de um cenário que retratasse a pastorícia tradicional, ou seja, pretendíamos fotografar um cão pastor a proteger as suas ovelhas.


Seguimos para um miradouro junto ao rio Águeda. A paisagem era incrível, nas vertentes íngremes do vale nidificam várias espécies de rapinas, incluindo o grifo e a águia-de-Bonelli (Aquila fasciata). O Nordeste do Portugal é um local extremamente biodiverso, onde podemos observar com alguma facilidade espécies que não existem ou que são muito menos comuns noutros pontos do país. Mais uma vez tivemos sorte e vimos, para além de vários grifos, uma águia-de-bonelli, uma águia-calçada (Hieraaetus pennatus) e uma águia-cobreira (Circaetus gallicus).


O Juan queria fotografar as cores da primavera com o drone e, por isso, dirigimo-nos para uma área repleta de giestas que cobriam a paisagem de amarelo. Este foi o local ideal para fotografar algumas flores e também insetos polinizadores.


Com o dia a chegar ao fim tínhamos ainda mais um objetivo, fotografar gado em regime extensivo. Fomos para uma quinta enorme onde a presença do lobo é uma possibilidade. Apesar de termos visto muito gado, isso não parece afetar a qualidade do habitat, aqui a paisagem é dominada por zonas abertas ponteada por árvores, maioritariamente carvalho-negral (Quercus pyrenaica), e zonas de mato.


Depois de fotografarmos as vacas, a luz foi ficando cada vez melhor e foi tempo de tentarmos a nossa sorte com outros sujeitos. A beleza ímpar deste local inspirou-me a  procurar algo na paisagem que fosse diferente do que normalmente eu fotografo. Finalmente encontrei uma árvore com o sol a brilhar por entre os ramos que chamou a minha atenção.


Com o sol quase já a desaparecer decidi focar-me nas aves. Primeiro vi um trigueirão (Emberiza calandra) a vocalizar numa árvore morta e de imediato percebi que poderia resultar numa excelente imagem com as cores do pôr-do-sol no fundo. Depois o Juan descobriu um cuco-canoro (Cuculus canorus) que estava a caçar não muito longe de onde nos encontrávamos. A caçada estava a correr bastante bem ao cuco, até que um picanço-barreteiro (Lanius senator) se aproximou sorrateiramente e roubou-lhe uma lagarta que tinha caçado segundos atrás.


Assim terminou esta aventura inesquecível. Só me resta agradecer à Rewilding Portugal, pela oportunidade de conhecer o Juan Carlos Muñoz. Para além da excelente pessoa, é também um grande profissional e aprendi muito com ele durante estes dois dias. A área de ação deste projeto é espetacular e está repleta de biodiversidade e penso que com este projeto tornar-se-á ainda mais especial. No final fiquei com uma grande vontade de lá voltar no futuro, para explorar esta área mais a fundo e para fotografar algumas das espécies e paisagens que não foi possível desta vez.


Obrigado por ler este artigo. Esteja à vontade para deixar um comentário e para partilhar. Se tiver alguma dúvida, ou se quiser saber mais sobre este assunto, contacte-me.


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