A Terra Do Fogo - Daniel Santos Photography

Publicado a 28/05/2018

A Terra Do Fogo

Todos os anos Portugal é devorado por milhares de incêndios florestais. Entre 2007 e 2016 ocorreram em média 3 662 incêndios florestais por ano, correspondendo a 84 671 ha de área ardida. Só em 2017 arderam mais de 440 mil ha de floresta, matos e povoamentos, o que corresponde a 4 vezes mais do que foi registado nos últimos 10 anos (aumento em 428%). Apenas num único dia (15 de outubro) foram assinalados mais de 500 fogos! Como resultado de todos estes incêndios, mais de 100 pessoas perderam a vida e muitas mais ficaram feridas, ou perderam as suas casas e os seus empregos.


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2017 foi um ano trágico, não só do ponto de vista social, mas também ambiental. Infelizmente os media raramente exploram os problemas que os incêndios acarretam para a sobrevivência e qualidade dos nossos ecossistemas. Grande parte dos incêndios florestais devem-se a causas humanas (cerca de 98%), voluntárias ou negligentes, sendo a segunda a mais expressiva. No entanto, há outro fator a ter em conta que potencia o desenvolvimento destes incêndios, que é a inexistência de um plano de gestão florestal eficaz. Desde o inicio do século XX que a floresta nativa de Portugal tem sido substituída por monoculturas de eucaliptos (Eucalyptus globulus), espécie oriunda da Austrália, utilizada essencialmente na indústria do papel. Atualmente o eucalipto representa 26% da área total de floresta, sendo a espécie arbórea que ocupa maior área.


Esta espécie é responsável por sérios problemas ecológicos, não proporcionando habitat adequado para grande parte das espécies animais e vegetais nativas do nosso país. Causam uma diminuição do nível dos lençóis freáticos, pois as suas raízes profundas absorvem elevadas quantidades de água. Também produzem manta morta que não é degradada pelos microrganismos que estão presentes nos nossos solos. Como os níveis de decomposição são baixos, forma-se uma camada de folhas que tornam os solos impermeáveis à água. Desta forma, a água escorre rapidamente para as zonas de cotas mais baixas, provocando grandes inundações e os lençóis freáticos não são alimentados. Para além dos eucaliptais serem locais extremamente secos, as folhas destas plantas são ricas em óleos voláteis inflamáveis, que servem de combustível a grandes incêndios florestais. Depois de queimadas e/ou depois de serem cortadas, estas árvores regeneram e voltam a produzir biomassa que alimentará novos incêndios. O ritmo de crescimento destas plantas é tão rápido que qualquer outra espécie autóctone não as consegue acompanhar. Os eucaliptais são um meio ideal para a propagação de incêndios, que acabam muitas vezes por atingir zonas naturais, seminaturais e rurais, onde os níveis de biodiversidade são notoriamente mais elevados. Devido a estes incêndios milhares de populações de fauna e flora são devastadas e os indivíduos que sobrevivem acabam por sucumbir por falta de alimento. Estes locais outrora ricos em vida, dão lugar a áreas dominadas por espécies invasoras, que abafam o crescimento das plantas originais. Isto acontece todos os anos!


Para além dos eucaliptos, Portugal tem também apostado no pinheiro-bravo (Pinus pinaster), que atualmente ocupa 23% da área total de floresta. Esta espécie apesar de ser autóctone, nunca existiu em concentrações tão elevadas e também é bastante inflamável, embora não esteja ao nível do eucalipto. No total, quase 50% da floresta portuguesa é representada por apenas duas espécies, responsáveis por impactes ambientais catastróficos. Na minha opinião, quando comparadas com todos os prejuízos e com toda a logística no combate aos incêndios, as soluções são simples. Do ponto de vista ambiental necessitamos de uma reconversão da floresta, ou seja, uma grande parte da área de eucalipto e pinheiro-bravo deveria ser substituída por espécies nativas. Seria também crucial fazer uma melhor gestão das áreas que se mantivessem para exploração dessas espécies. Infelizmente não estão previstas alterações significativas, que realmente tenham um efeito positivo na biodiversidade.


Os incêndios são uma das principais ameaças aos nossos ecossistemas e, portanto, são um dos maiores problemas ambientais que enfrentamos. Arrisco mesmo a dizer que é o maior crime ambiental alguma vez visto em Portugal. No entanto, tendo em conta o poder da indústria do papel no nosso país, pouco ou nada tem sido feito por parte do governo para travar, ou pelo menos mitigar este problema. Pelo contrário, em 2017 o estado criou um programa de fundos europeus com 9 milhões de euros para promoção de eucaliptos, enquanto que apoios para a plantação de espécies autóctones não existem.


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